Nestes momentos de incerteza, o ansioso blogueiro recorre invariavelmente ao sábio Oráculo de Delfos.
– Oráculo, por favor me acuda ! A Globo diz que a culpa é toda do Agnello !
– Calma, meu filho. Quem é o Agnello ?
– O Governador de Brasília … Do PT.
– Roriz, Arruda e quem ?, pergunta ele, como se não soubesse quem é o Agnello.
– Agnello.
– Meu filho, em Brasília até o lago é falso.
– Mas, Oráculo, por favor, o que é isso tudo ? No que vai dar essa bafa-bafa ?
– Abafa, meu filho. A imprensa quer abafar.
– O que, Oráculo ?
– Tudo.
– Mas, como, tudo ?
– Porque está tudo comprometido.
– Como assim, Oráculo, não aumente o meu desespero.
– Calma, meu filho. Tome um chá de camomila.
– Não tomo chá, Oráculo. Prefiro tequilla.
– Meu filho, se você soma a Satiagraha com o Demóstenes, o Brasil inteiro está lá dentro. É uma coisa só ! É um Brasil só.
– É … pensando bem, sempre desconfiei disso. Daniel Dantas, empreiteira Delta. Tem uma lógica nessa loucura.
– O que você está vendo diante dos teus olhos é o processo como um todo. Não escapa nada, porque o conjunto é que está podre.
– Mas, Oráculo, não tem ninguém que preste ?
– Claro, claro que tem gente que preste. Mas, são os lírios da lama …
– Oráculo, não é bem assim, são os lírios …
– Meu filho, entenda o que eu estou falando: dentro da lama pode haver vida saudável. É difícil, mas pode, na borda.
– Mas, como sair dessa ?
– Não sei se há saída, nem sei é para já, se houver saída.
– Mas, o que está errado, Oráculo ?
– O sistema político, a forma de representação, a organização partidária e o financiamento das campanhas.
– Bom, Oráculo, aí você já quer reinventar o Brasil.
– Quem mandou perguntar ? E tem mais, viu ? O Judiciário. O Judiciário é a argila dessa massa fedida.
– Mas, como é que se sai dessa ?
- Vai demorar muito. Porque está todo mundo na roda. Eu te pergunto: quem não está no Daniel Dantas ou no Cachoeira ? Que partido ? Quem não tem o rabo preso ?
– A Folha !
– Como é que é ?
– Deixa pra lá, Oráculo.
– Veja uma coisa: não tem candidato a prefeito. Quantas grandes cidades do Brasil ainda não definiram o prefeito, quantas coligações já estão prontas ?
– E daí, Oráculo ?
– Porque esse sistema político aí é um sarapatel, uma misturança. Ninguém é de ninguém. Ou todos são de todos. Não tem coerência, partido. Aí, chega um Dantas, um Cachoeira, uma Delta … e ocupa o espaço. Abre a banca.
– Quem é a Delta, Oráculo ?
– Uma letra do alfabeto grego.
– Ah …
– E a imprensa também caiu na lama. Se misturou com os bandidos.
– Você acha ?, Oráculo, perguntou o ansioso blogueiro, como se soubesse a resposta.
– Veja, Globo, Estadao, Folha, não sobra nada. Não dá para ler mais nada.
– É o PiG, Oráculo.
– É o que ?
– Deixa pra lá, uma palavra inglesa. E a CPI, Oráculo ?
– O PSDB tem mais a perder que o PT.
– Por isso o PT quer tanto.
– Você faria o que ?
– Mas, a CPI vai resolver alguma coisa ?
– Vai.
– O que, Oráculo ?
– Melar o mensalão.
– Peraí, Oráculo, já ouvi isso em algum lugar …
– Mela, mas fica um pouco de lama na bainha da calça.
– Como assim, Oráculo ?
– Ora, meu filho, tenho mais o que fazer. Me dê licença.
Pano rápido.
Paulo Henrique Amorim
sexta-feira, 13 de abril de 2012
Cachoeira e Dantas – é o todo. E demora a limpar
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Lula x FHC. A tabelinha. Por que a Dilma se reelegerá
O Farol de Alexandria propaga que o Nunca Dantes só fez “surfar”.
Ele, o Farol, reinventou o Brasil e o Lula passou oito anos a se beneficiar dele e da maré montante da economia mundial.
Esqueceu-se do Tsunami da Urubóloga de 2008 !
E da Herança Maldita que deixou.
Por elas e outras, na eleição de 2002, nem o Padim Pade Cerra defendeu o Governo do Farol !
Para evitar dúvidas que o PiG (*) faz questão de difundir, aqui vai uma “tabelinha”, ou por que a Dilma vai se reeleger, ou por que nenhum tucano, tão cedo, sobe a rampa do Palácio do Planalto:
Extraído de “Economia Brasileira em Perspectiva” – 14ª Edição Especial – de fevereiro de 2012, do site do Ministério da Fazenda.
PIB
2002 – US$ 500 bilhões
2012 – US$ 2,6 trilhões, o que faz do Brasil a SEXTA economia do Mundo
PIB per capita
2002 – US$ 2,8 mi
2012 – US$ 13,3 mil
Ou seja, os dois casos, o Brasil se multiplicou por CINCO.
Produção de automóveis
2002 – 1,8 milhão de unidades
20111- 3,4 milhões de unidades, o que faz do Brasil o SEXTO maior produtor mundial
Safra de grãos
2002 – 96,8 milhões de toneladas
2011 – 163 milhões (campeão mundial na produção de cana e vie campeão mundial na produção de soja)
Taxa de investimento sobre o PIB
2002 – 16, 4%
2012 – 20,8%
Investimento Estrangeiro Direto
2002 – US$ 16,5 milhões
2011 – US$ 66,6 bilhões – 4o. Lugar emingressos de IED
Inflação – IPCA
2002 – 12,5%
2012 – 4,7%
Desemprego
2002 – 12,9%
2011 – 4,7 – entre 2002 e 2001 o Nunca Dantes criou 18 milhões de postos de trabalho
Formalização do trabalho
2002 – 45,5%
2011 – 53,2%
Salário Mínimo nominal
2002 – R$ 200
2012 – R$ 622 – ganho real : 66%
Coeficiente de Gini, que mede a desigualdade de renda (quanto mais perto de 1, pior)
2002 – 0,589
2011 – 0,541 – queda de 8,9%
Taxa de pobreza (Classe “E” no total da população)
2002 – 26,7%
2012 – 12,8%
Classe C sobre total da população
2002 – 37%
2012 – 50%
Número de matrículas no ensino profissional
2002 – 565 mil
2012 – 924 mil
Percentual da força de trabalho com 11 anos ou mais de estudo
2002 – 44,7%
2012 – 60,5%
Bolsas de Mestrado e Doutorado no Capes e CNPq
2002 – 35 mil
2010 – 74 mil
2013 – 105 mil
Títulos em doutorado
2002 – 6.894
2012 – 13.304
Dívida externa
2002 – US$ 165 bilhões
2011 – US$ – 79,1 bilhões
Reservas Internacionais
2oo2 – US$ 36 bilhões
2012 – US$ 353 bilhões
Exportacoes
2002 – US$ 60 bilhões
2011 – US$ 256 bilhões
Juros – taxa Selic
2002 – 25% aa
2012 (31 janeiro) – 10,50% (9,75% em março)
Taxa que o Brasil paga em título vendido no exterior
2002 – 12,6% aa
Janeiro de 2012 – 3,5% aa
Dívida do setor público sobre o PIB
2002 – 60,4%
2012 – 36,9%
% da divida indexada à taxa de cambio
2002 – 45,83%
dez 2011 – 21,89
Despesas de pessoal
2002 – 4,8% do PIB
2012 – 4,4% do PIB
Fonte: Conversa Afiada.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
FHC fugiu do Amaury
Na nota em que ” toma satisfações do Amaury”, o Farol de Alexandria pede Justica e se diz vitima de uma “infâmia”.
Ou seja, ele fugiu do Amaury.
O Codigo Penal preve três crimes contra a honra.
Injúria, artigo 137, é atribuir uma qualidade negativa a alguem: Zezinho é muito feio.
Calúnia, artigo 138, consiste em atribur um crime a alguém: Zezinho roubou a minha bicicleta.
Difamação, artigo 139, consiste em ofender a reputação: Zezinho só vai trabalhar embriagado.
“Infâmia” é literatura.
Nao é crime.
Ninguém pode exigir Justiça para reparar uma infâmia.
Por que o Farol acusa o Amaury de infamante?
Porque isso não tem consequência jurídica.
Tem o mesmo valor de chamar o Amaury de vesgo.
O Farol jogou para a plateia.
Para os parvos.
O Farol, o Cerra ou qualquer ilustre membro de sua clã precisa pensar duas vezes antes de processar o Amaury.
O Ricardo Sérgio fez essa besteira, leviu uma “exceção da verdade” pela lata e deu no que deu.
FHC mostrou-se indignado, pediu Justiça e foi embora para a Europa – e o Cerra que se vire.
O Farol deve ter consultado um criminalista de escola, como seu Ministro da Justiça, José Carlos Dias, advogado de Cerra.
E o Dias sabe que infâmia é como uma nuvem.
Escurece e vai embora.
Paulo Henrique Amorim
sábado, 10 de dezembro de 2011
O “D” de PSDB quer mesmo dizer Democracia?
Por Ana Helena Tavares(*)
Já não está mais aqui o velho timoneiro que também criou um partido com “D” na sigla e dava a essa letrinha o seguinte sentido: “A grande força da democracia é confessar-se falível de imperfeição e impureza, o que não acontece com os sistemas totalitários, que se autopromovem em perfeitos e oniscientes para que sejam irresponsáveis e onipotentes.” (Ulysses Guimarães)
Se já nenhum ser humano é infalível, imaginem no jogo político, reforçado pela numerosa parcela medíocre da imprensa que se vende a ele, onde há palanques até embaixo de tapetes. Não há altares de pureza.
De limpa já basta a raça com que Hitler sonhava – e que parte do mundo ainda quer tornar realidade. É um jogo de causar inveja ao mais maquiavélico jogador de pôquer. RM (o todo-poderoso da Globo) entendia dos dois jogos. FHC lecionou sobre Maquiavel.
JS, aluno tardio e arredio, não aprendeu grande coisa. Principalmente, não aprendeu a reconhecer seus próprios erros. Coisa que não poderia mesmo aprender com FHC.
Por que, com todos os defeitos que possa ter tido, nossa Constituinte foi um avanço democrático? Porque é preciso reconhecer-se imperfeito para avançar. Naquele momento, os congressistas sentiam-se derrotados por 20 anos de ditadura. E só assim foi possível começar de novo.
Quando JS e FHC reconhecerão que foram derrotados? Não por Dilma, nem por Lula, nem pelo PT, mas por seus próprios aliados e, pior, por seus próprios egos. JS mantém um Twitter tragicômico. FHC escreve artigos que ninguém de bom senso consegue ler.
É assombrosa a miudeza de pensamento deles. Não fazem política. Fazem futrica.
É nítida a sede de poder, vazia de sustentação. A eterna ânsia de tapetão.
Isso não é bom para o Brasil.
O que o PSDB fez ao pedir a cassação do registro de Dilma, quando ela contava com mais de 50% dos votos na eleição de 2010, senão a irresponsabilidade de tentar ganhar na marra, achando-se onipotente, “cavalo puro sangue”, na (ingênua) tentativa de aniquilar a concorrência?
E por que perderam mesmo com a metralhadora da mídia apontada unicamente contra o PT? Porque o T de PT quer mesmo dizer Trabalhadores. Negar isso é negar que milhões de pessoas foram tiradas da miséria, fato que o mundo inteiro reconhece.
Ah, o Brasil ainda tem muitos problemas… A educação de base é das piores do mundo. Ok. Vocês não acham possível mudar em 9 anos um país explorado por 5 séculos, não é?
Membros da alta cúpula petista enriqueceram? Sim. Se foi dentro da lei, e daí? Que moralismo de bordel é esse onde político não pode enriquecer, mas todo mundo acha normal a fortuna de Steve Jobs e Eike Batista? Quem vocês acham que corrompe os políticos senão os grandes empresários? Se o enriquecemento não foi lícito, é caso de polícia. É assunto para o Ministério Público e para a Justiça.
Como também deveria ser o recém lançado livro “A privataria tucana”, do premiado jornalista Amaury Ribeiro Jr.
Dizem que o “B” de PSDB refere-se a Brasil. Vender o patrimônio público e enriquecer em cima disso é ser brasileiro onde, quando, como?
A roubalheira durante as privatizações foi fortíssima. O teor do livro seria para colocar na cadeia JS, FHC e RT (o dono da bola, homem com o corpo mais fechado do Brasil). É vergonhoso, escandaloso, indecoroso, o silêncio sepulcral da mídia e o do judiciário.
Hoje, quem for à banca de jornal, presenciará uma guerra de capas. A da revista Carta Capital anuncia o livro bombástico. Mas engana-se quem acha que Veja o ignora. A revista(?) da Editora Abril passa recibo, tentando desqualificar as denúncias.
A diferença? É que o trabalho bem apurado da Carta Capital só tem voz graças à internet. Já o esgoto da Veja tem efeito cascata na Folha, no Estadão e em todos os veículos comandados pela família de RM (o homem que jogava pôquer com a sociedade).
Nenhum país avança na caminhada democrática tendo uma oposição que, por não conseguir ganhar no voto, se escora na mídia para desestabilizar o governo. Federal. Porque o de SP não passa pela boca da Poeta nem quando a corrupção sai em livro.
Vai daí que a corrupção só vai acabar quando ela parar de ser investigada e punida de forma seletiva. Quando a regulamentação da mídia garantir acesso à informação a todos os brasileiros. Quando houver uma reforma séria no judiciário. Quando houver uma reforma séria na política.
Quando tudo isso acontecer afetará a vida de todos, principalmente a da elite, por detrás de seus vidros fumê. De onde não ouve o povo. Nem o vê.
Quando afirmei, no início deste texto, que JS e FHC foram derrotados por seus próprios aliados não foram palavras gratuitas. O jornalista Amaury Ribeiro Jr. de petista não tem nada – é ligado a AN (diz isso no livro). E tudo indica que foi o neto de Tancredo que, que mandando e desmandando no jornal “O Estado de Minas”, lhe pediu o início das investigações que geraram o livro.
Amaury foi, então, acusado de quebrar o sigilo de diversos tucanos para obter algumas das informações. Sendo verdade, o que JS tem a reclamar se sua filha, através de sua empresa, quebrou uma quantidade infinitamente maior de sigilos para fins bem menos nobres?
Ligado ao PSDB e legítimo representante da privataria, agora denunciada e fartamente documentada em livro, o engenheiro Luiz Carlos Mendonça de Barros, teve amplo espaço na edição de 30 de Agosto de 2010 da revista Época, para se defender do suposto grampo de Amaury dizendo o seguinte absurdo: “quebra de sigilo fiscal guarda a mesma proporção que uma tortura física praticada pela polícia e pelo exército porque se trata de direitos constitucionais do cidadão” (declaração que só pode mesmo vir de quem estava nadando em dinheiro durante a ditadura).
Aí, fica a pergunta: no escândalo do grampo (leia-se quebra de sigilo telefônico) – que levou “Mendonção” (como é conhecido Mendonça de Barros), então presidente do BNDES, ao banco dos réus (sendo absolvido) em ação de improbidade administrativa, e que comprovadamente ocorreu com a condescendência do então Presidente da República FHC – não estavam em jogo “direitos constitucionais do cidadão”?
O que este texto tenta mostrar é que o que distingue um governo de outro não é aquilo que todos chamam hipocritamente de moral, bons costumes, etc e tal, sem, muitas vezes, ter nada disso em casa. A diferença está no projeto político. É isso o que os brasileiros deveriam estar discutindo nos bares (além do futebol, é claro).
Reza a lenda que o brasileiro típico “não tem nem um mal nem um bom caráter, simplesmente não o tem”. Só que isso não quer dizer que sejamos manipuláveis. Macunaíma era bem mais esperto do que os leitores da Veja.
Não consigo ver o nosso “herói sem nenhum caráter” acreditando em denúncias sem provas e desprezando um livro bem documentado. Não, ele não cairia nessa.
O que somos é maleáveis ao vento dos interesses. E aí há gente que acredite em tudo, de acordo com o que lhes convém.
E há também quem não possa acreditar nem deixar de acreditar por ser impedido de se informar sobre os acontecimentos. O editor do livro “A privataria tucana” já denunciou ter sido sondado por JS para uma “conversa”.
JS foi líder estudantil numa época em que o Brasil vivia sob um regime que também começa com “D”. Espero que ele não esteja com saudades.
*Ana Helena Tavares é editora do site Quem tem medo da democracia?
domingo, 20 de novembro de 2011
Mauro Santayana: Espanha, entre a direita e a direita
A Espanha, nas eleições de domingo, está entre a direita e a direita. Por mais que o PSOE busque recuperar o discurso, seus porta-vozes de hoje estão afônicos. Mas a Espanha não é um caso isolado. A esquerda está nas ruas, com os indignados do mundo inteiro, mas sem líderes, sem projetos e sem programass.
Nos meses fervilhantes de 1963, que antecederam o golpe militar, eu subia, com os professores de direito e homens públicos Edgard da Matta Machado e Alberto Deodato, a Rua da Bahia, eixo político e social de Belo Horizonte. Deodato, sergipano, que vivia em Minas desde moço, era advogado de latifundiários, assumia a sua posição de direita e convivia, com amabilidade, com pessoas de esquerda, como éramos Edgard e eu. De repente, ele, bem humorado, parou e comentou que contrariava a lógica e a física: como caminhava entre nós dois, estava entre a esquerda e a esquerda.
A Espanha, nas eleições de domingo, está entre a direita e a direita. Por mais que o PSOE busque recuperar o discurso, seus porta-vozes de hoje estão afônicos: os sonhos de Pablo Iglesias, o fundador do socialismo espanhol, foram varridos pela timidez de Zapatero e seu grupo. Mas a Espanha não é um caso isolado. A esquerda está nas ruas, com os indignados do mundo inteiro, mas sem líderes, sem projetos e sem programas. Mesmo que os indignados espanhóis quisessem, não teriam em quem votar. Em seu desconsolo, tanto faz sufragar Rubacalba quanto Rajoy. Por isso mesmo espera-se a vitória do conservador, por ser uma alternativa ao que já se conhece.
O bipartidarismo de fato, que muitos admiram e querem, fecha o passo a terceiras idéias e novas personalidades. Desde a eleição de Felipe González que os socialistas buscam o acomodamento na Espanha. Naquele momento, a tática da moderação era necessária. É de se recordar que, nos debates no Parlamento, para a aprovação do nome do então jovem advogado andaluz como chefe de governo, em outubro de 1982, o chefe de fila da direita, Manuel Fraga Iribarne, comentou que Felipe aparecia na arena como un toro afeitado, ou seja, um touro com os chifres serrados, com discurso apaziguador. Mas Fraga advertiu que fora um touro de chifres aparados que matara o famoso toureiro Manolete em 1947, em Liñares.
Felipe foi um bom governante na garantia das liberdades públicas, mas se manteve tímido na frente econômica, sem avançar sobre os Acordos de Moncloa, negociados pelo seu predecessor Adolfo Suarez. Os endinheirados, que vinham de Franco, mesmo que hajam cedido um pouco, continuaram governando de fato o país, mediante os bancos e as grandes corporações.
Essa falta de ousadia e outros equívocos levaram a direita a tomar o poder, em 1996, com Aznar, saudoso do franquismo e vassalo fiel de Washington. Ele ficou famoso pelo seu atrevimento ao tratar a América Espanhola como nos séculos 16 e 17, quando no auge do Império colonial.
Como é sabido, Aznar chegou a telefonar para o presidente argentino Eduardo Zuhalde, ordenando-lhe, com grosseria, que acatasse as exigências do FMI.
Zapatero começou com algumas esperanças, ao reduzir a submissão a Washington, ao retirar o grosso de suas tropas do Iraque, mas, pouco a pouco, foi aceitando as pressões, internas e externas, associando-se aos banqueiros e às corporações empresariais.
Desviando recursos recebidos da União Européia, financiou a compra de empresas estatais e privatizadas na América Latina – incluído o Brasil – em continuação à política neoliberal da direita. Com isso, ao não usar os recursos no próprio país, contribuiu para a grave crise econômica atual. A um sucedâneo da direita, que era o seu governo, os eleitores indecisos preferem o original, e votam agora em Rajoy. O mesmo fenômeno pode ocorrer na Europa, nos poucos países em que governos de centro e centro esquerda detêm o poder.
Mas muitos dos desiludidos dos partidos tradicionais, que agravaram a situação de desemprego, vão mais à direita e procuram os partidos racistas como alternativa. Há, assim, a rearticulação dos nazistas e fascistas, com seu ódio contra os estrangeiros, como ocorreu há dias na grande manifestação da ultra-direita em Varsóvia. O massacre da Noruega é uma séria advertência que os governantes estão desprezando.
Há, no entanto, duas possibilidades de que o centro-esquerda ganhe os pleitos futuros: a França, desanimada de Sarkozy e de seus crimes na Líbia; e a Alemanha de Angela Merkel, cuja política, ainda que bem sucedida em termos econômicos, dá sinais de fadiga.
por Mauro Santayana, em Carta Maior
sábado, 19 de novembro de 2011
Não acredite em agências de risco. O problema não é a Miriam. É a Globo
A agência de risco americana Standard & Poor’s elevou a nota do Brasil a BBB – ou seja, o risco de o Brasil dar um calote da dívida é minimo.
Foi essa mesma S&P que rebaixou a nota dos Estados Unidos e seu presidente foi devidamente demitido.
O Conversa Afiada não leva nenhuma agência de risco a sério.
Especialmente a S&P.
São agências de chute revestido de ciência, como acontece com os instrumentos da ação do Neolibelismo (*) pelo mundo.
Sobre o cascatômetro das agências de risco, assista, amigo navegante, ao filme Inside Job, Trabalho Interno.
Não fica agência sobre agência.
Mas a Urubóloga, neolibelês (*) por excelência, acredita em agências.
Agências reguladoras (como a Anatel rsrsrsrsr) e de risco.
Hoje, na primeira pagina de O Globo, sabe-se que a colona (**) da referida colonista (***) completa ali 20 anos.
Vinte anos de neolibelismo (*) na veia !
O ansioso blogueiro correu a referida colona (**) para ler sobre o novo reluzente papel do Brasil na S&P.
Nada.
A colona (**) dos Vinte Anos é um exercicio naricisístico sobre a colonista e seu papel testemunhal, decisivo, nos últimos vinte anos de história do Brasil – que, sem ela e a Globo, não seria o mesmo.
O problema não é a Miriam.
O problema é a Globo.
A Globo, que da à Miriam uma exposição que nenhum pensador brasileiro sobre a Economia jamais teve.
Roberto Simonsen, Nelson Werneck Sodre, Mario Henriue Simonsen (para ficar na letra “s”), juntos, jamais terão o poder de penetração e persuasão que a Urubóloga tem num único dia: no Bom (?) Dia e seus gráficos mortíferos (pobre Renata Vasconcelos ! ), na CBN, a radio que troca a noticia, no Globo, no portal Globo.
A Globo também não seria a mesma sem ela.
A Urubóloga dá o substância ideológica ao maior conglomerado de mídia da América Latina.
(O Ali Kamel é o Ratzinger – o guardião da Fé e o Torquemada, o que manda para a fogueira.)
Esse é o problema, ministro Bernardo.
Usar um bem público – o sinal aberto – para disseminar ideologia travestida de Ciência.
A Urubóloga jamais produziu uma única ideia original.
Ela é um “embutido” da Sadia.
Mistura ingredientes conhecidos.
E que, separados, você talvez não ousasse consumir.
Como diria o Malan do Cerra: o que é novo não é bom; o que é bom não é novo.
O problema é a Globo - montada num país cuja ultima Ley de Medios data de 1963, no governo do grande Presidente João Goulart – é a Globo ter o poder que tem.
O problema não é a Miriam.
Porque, na Economia – que não é Ciência – a Urubóloga é um Paulo Coelho: a fama é inversamente proporcional à qualidade.
Paulo Henrique Amorim
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
A alma da UDN
Ele reage, em parte, aos “conselhos” da professora americana Frances Hagopian, que sugeriu que o PSDB precisa assumir-se como um partido de centro-direita.
A certa altura, ele se expõe:
Não se deve, então, falar em esquerda e direita ?
Há uma insistência nessa dicotomia. Isso se deve à falta de analisar os processos reais, o mundo concreto. Não é que inexista uma esquerda, mas… o que significa a esquerda hoje? Ninguém mais pensa, como no passado, coisas como coletivização dos bens privados, feita por um partido que dominasse o Estado em nome de uma classe. Isso não ocorre mais.
Fernando Henrique, a quem não falta conhecimento teórico para saber disso, tem perfeita compreensão que, há mais de 50 anos, não se pode definir assim o pensamento de esquerda. Ele próprio, quando ainda não havia transitado de lado, era um intelectual de esquerda sem jamais ter defendido a coletivização dos bens privados ou o domínio do Estado por um partido em nome do Estado.
Ser de esquerda – sobretudo aqui e progressivamente, desde os anos Vargas – foi sinônimo de defender um nacionalismo inclusivo que, de um lado, protegesse o país do saque colonial – de riquezas naturais e, mais tarde, financeiro – e, de outro, promovesse o resgate, longe de ser concluído, de imensos contingentes da população de uma condição de miséria.
Seu governo fez exatamente o contrário. Sobre a entrega e abertura das entranhas do país, nem é preciso falar, todos sabem. Sobre a exclusão, alguém duvida do quanto se alargou o fosso entre elite e povão, nesse período. Não, claro, não foi ele quem a inventou. Mas tomou gosto nela, pela sua própria alma deslumbrada e a palavra “moderno” passou a ocupar na sua mente um lugar que eclipsava totalmente a palavra “justo”.
“Quem defende a direita no Brasil? Ninguém. Mas na prática ela existe – mas a nossa direita é muito mais o atraso, o clientelismo, fisiologismo, esse tipo de questão, do que a defesa dos valores intrínsecos da propriedade, da hierarquia”.
Perfeito. Reduzimos, então, a direita no Brasil a alguns políticos sem-vergonhas, nepotistas ou a figuras tristemente folclóricas.
A propriedade e a hierarquia que fazem deste país um dreno de riquezas e de trabalho, em proveito de uma ínfima elite e de uma ordem econômica mundial decrépita são defendidos por quem?
Ah, sim, pelos “modernos”.
“(…) Temos (o PSDB) uma tradição republicana, nos diferenciamos bastante nisso. A coisa pública tem que ser respeitada como tal e não ser objeto nem de apropriação privada nem político-partidária. Isso é uma linha. Não é esquerda nem direita, é republicana”.
Mais uns anos de tal tradição republicana, não sobraria República.