sábado, 21 de abril de 2012

Medíocres e perigosos


Perfil do cidadão comum

O reacionário é, antes de tudo, um fraco. Um fraco que conserva ideias como quem coleciona tampinhas de refrigerante ou maços de cigarro – tudo o que consegue juntar mas só têm utilidade para ele. Nasce e cresce em extremos: ou da falta de atenção ou do excesso de cuidados. E vive com a certeza de que o mundo fora da bolha onde lacrou seu refúgio é um mundo de perigos, pronto para tirar dele o que acumulou em suposta dignidade.

Para ele, tudo o que é diferente tem potencial de destruição
Como tem medo de tudo, vive amargurado, lamentando que jamais estenderam um tapete à sua passagem. Conserva uma vida medíocre, ele e suas concepções e nojos do mundo que o cerca. Como tem medo, não anda na rua com receio de alguém levar muito do pouco que tem (nem sempre o reacionário é um quatrocentão). Por isso, só frequenta lugares em que se sente seguro, onde ninguém vai ameaçar, desobedecer ou contradizer suas verdades. Nem dizer que precisa relaxar, levar as coisas menos a sério ou ver graça na leveza das coisas. O reacionário leva a sério a ideia de que é um vencedor.
A maioria passou a vida toda tendo tudo aos alcance – da empregada que esquentava o leite no copo favorito aos pais que viam uma obra de arte em cada rabisco em folha de sulfite que ele fazia – e cultivou uma dificuldade doentia em se ver num mundo de aptidões diversas. Outros cresceram em meios menos abastados – e bastou angariar postos na escala social para cuspir nos hábitos de colegas de velhos andares. Quem não chegou aonde chegou – sozinho, frise-se – não merece respeito.
Rico, ex-pobre ou falidos, não importa: o reacionário clássico enxerga em tudo o que é diferente um potencial de destruição. Por isso se tranca e pede para não ser perturbado no próprio mundo. Porque tudo perturba: o presidente da República quer seu voto e seus impostos; os parlamentares querem fazê-lo de otário; os juízes estão doidos para tirar seus direitos acumulados; a universidade é financiada (por ele, lógico) para propagar ideias absurdas sobre ideais que despreza; o vizinho está sempre de olho na sua esposa, em seu carro, em sua piscina. Mesmo os cadeados, portões de aço, sistemas de monitoramento, paredes e vidros anti-bala não angariam de todo a sua confiança. O mundo está cheio de presidiários com indulto debaixo do braço para visitar familiares e ameaçar os seus (porque os seus nunca vão presos, mesmo quando botam fogo em índios, mendigos, prostitutas e ciclistas; índios, mendigos, prostitutas e ciclistas estão aí para isso).
Como não conhece o mundo afora, a não ser pelas viagens programadas em pacotes que garantem o translado até o hotel, e despreza as ideias que não são suas (aquelas que recebeu de pronto dos pais e o ensinaram a trabalhar, vencer e selecionar o que é útil e o que é supérfluo), tudo o que é novo soa ameaçador. O mundo muda, mas ele não: ele não sabe que é infeliz porque para ele só o que não é ele, e os seus, são lamentáveis.
Muitas vezes o reacionário se torna pai e aprende, na marra, o conceito de família. Às vezes vai à igreja e pede paz, amor, saúde aos seus. Aos seus. Vê nos filhos a extensão das próprias virtudes, e por isso os protege: não permite que brinquem com os meninos da rua nem que tenham contato com ideias que os retirem da sua órbita. O índice de infarto entre os reacionários é maior quando o filho traz uma camisa do Che Guevara para casa ou a filha começa a ouvir axé e namorar o vocalista da banda (se ele for negro o infarto é fulminante).
Mas a vida é repleta de frestas, e o tempo todo estamos testando as mais firmes das convicções. Mas ele não quer testá-las: quer mantê-las. Por isso as mudanças lhe causam urticárias.
Nos anos 70, vivia com medo dos hippies que ousavam dizer que o amor não precisava de amarras. Eram vagabundos e irresponsáveis, pensava ele, em sua sobriedade.
Depois vieram os punks, os excluídos de aglomerações urbanas desajeitadas, os militantes a pedir o alargamento das liberdades civis e sociais. Para o reacionário, nada daquilo fazia sentido, porque ninguém estudou como ele, ninguém acumulou bens e verdades como ele e, portanto, seria muito injusto que ele e o garçom (que ele adora chamar de incompetente) tivessem o mesmo peso numa urna, o mesmo direito num guichê de aeroporto, o mesmo lugar na fila do fast food.
O reacionário vive com medo. Mas não é inofensivo. Foto: Galeria de GorillaSushi/Flickr
Para não dividir espaços cativos, frutos de séculos de exclusão que ele não reconhece, eleva o tom sobre tudo o que está errado. Sabendo de seus medos e planos de papel, revistas, rádios, televisão, padres, pastores e professores fazem a festa: basta colocar uma chamada alarmista (“Por que você trabalha tanto e o País cresce tão pouco?”) ou música de suspense nas cenas de violência (“descontrolada!”) na tevê para que ele se trema todo e se prepare para o Armagedoon. Como bicho assustado, volta para a caixinha e fica mirabolando planos para garantir mais segurança aos seus. Tudo o que vê, lê e ouve o convence de que tudo é um perigo, tudo é decadente, tudo é importante, tudo é indigno. Por isso não se deve medir esforços para defender suas conquistas morais e materiais.
E ele só se sente seguro quando imagina que pode eliminar o outro.
Primeiro, pelo discurso. No começo, diz que não gosta desse povinho que veio ao seu estado rico tirar espaço dos seus. Vive lembrando que trabalha mais e paga mais impostos que a massa que agora agora quer construir casas em seu bairro, frequentar os clubes e shoppings antes só repletos de suas réplicas. Para ele, qualquer barberagem no trânsito é coisa da maldita inclusão, aqueles bárbaros que hoje tiram carta de habilitação e ainda penduram diplomas universitários nas paredes. No tempo dele, sim, é que era bom: a escola pública funcionava (para ele), o policial não se corrompia (sobre ele), o político não loteava a administração (não com pessoas que não eram ele).
Há que se entender a dor do sujeito. Ele recebeu um mundo pronto, mas que não estava acabado. E as coisas mudaram, apesar de seu esforço e sua indignação.
Ele não sabe, mas basta ter dois neurônios para rebater com um sopro qualquer ideia que ele tenha sobre os problemas e soluções para o mundo – que está, mas ele não vê, muito além de um simples umbigo. Mas o reacionário não ouve: os ignorantes são os outros: os gays que colocam em risco a continuidade da espécie, as vagabundas que já não respeitam a ordem dos pais e maridos, os estudantes que pedem a extensão de direitos (e não sabem como é duro pegar na enxada), os maconheiros que não estão necessariamente a fim de contribuir para o progresso da nação, os sem-terra que não querem trabalhar, o governante que agora vem com esse papo de distribuir esmola e combater preconceitos inexistentes (“nada contra, mas eles que se livrem da própria herança”), os países vizinhos que mandam rebas para emporcalhar suas ruas.
Muitas vezes o reacionário se torna pai e aprende o conceito de família. Vê nos filhos a extensão das próprias virtudes, e por isso os protege: não permite que brinquem com os meninos da rua nem que tenham contato com ideias que os retirem da sua órbita
O mundo ideal, para o reacionário, é um mundo estático: no fundo, ele não se importa em pagar impostos, desde que não o incomodem.
Como muitos não o levam a sério, os reacionários se agrupam. Lotam restaurantes, condomínios e associações de bairro com seus pares, e passam a praguejar contra tudo.
Quando as queixas não são mais suficientes, eles juntam as suas solidões e ódio à coletividade (ironia) e passam a se interessar por política. Juntos, eles identificam e escolhem os porta-vozes de suas paúras em debates nacionais. Seus representantes, sabendo como agradar à plateia, são eleitos como guardiões da moralidade. Sobem a tribunas para condenar a devassidão, o aborto, a bebida alcoolica, a vida ao ar livre, as roupas nas escolas. Às vezes são hilários, às vezes incomodam.
Mas, quando o reacionário se vê como uma voz inexpressiva entre os grupos que deveriam representá-lo, bota para fora sua paranóia e pragueja contra o sistema democrático (às vezes com o argumento de que o sistema é antidemocrático). E se arma. Como o caldo cultural legitima seu discurso e sua paranoia, ele passa a defender crimes para evitar outros crimes – nos Estados Unidos, alvejam imigrantes na fronteira, na Europa, arrebentam árabes e latinos, na Candelária, encomendam chacinas e, em QGs anônimos, planejam ataques contra universitários de Brasília que propagam imoralidades (leia mais AQUI).
O reacionário, no fim, não é patrimônio nacional: é um cidadão do mundo. Seu nome é legião porque são muitos. Pode até ser fraco e viver com medo de tudo. Mas nunca foi inofensivo.

Matheus Pichonelli

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cachoeira e Dantas – é o todo. E demora a limpar


Nestes momentos de incerteza, o ansioso blogueiro recorre invariavelmente ao sábio Oráculo de Delfos.

– Oráculo, por favor me acuda ! A Globo diz que a culpa é toda do Agnello !

– Calma, meu filho. Quem é o Agnello ?

– O Governador de Brasília … Do PT.

– Roriz, Arruda e quem ?, pergunta ele, como se não soubesse quem é o Agnello.

– Agnello.

– Meu filho, em Brasília até o lago é falso.

– Mas, Oráculo, por favor, o que é isso tudo ? No que vai dar essa bafa-bafa ?

– Abafa, meu filho. A imprensa quer abafar.

– O que, Oráculo ?

– Tudo.

– Mas, como, tudo ?

– Porque está tudo comprometido.

– Como assim, Oráculo, não aumente o meu desespero.

– Calma, meu filho. Tome um chá de camomila.

– Não tomo chá, Oráculo. Prefiro tequilla.

– Meu filho, se você soma a Satiagraha com o Demóstenes, o Brasil inteiro está lá dentro. É uma coisa só ! É um Brasil só.

– É … pensando bem, sempre desconfiei disso. Daniel Dantas, empreiteira Delta. Tem uma lógica nessa loucura.

– O que você está vendo diante dos teus olhos é o processo como um todo. Não escapa nada, porque o conjunto é que está podre.

– Mas, Oráculo, não tem ninguém que preste ?

– Claro, claro que tem gente que preste. Mas, são os lírios da lama …

– Oráculo, não é bem assim, são os lírios …

– Meu filho, entenda o que eu estou falando: dentro da lama pode haver vida saudável. É difícil, mas pode, na borda.

– Mas, como sair dessa ?

– Não sei se há saída, nem sei é para já, se houver saída.

– Mas, o que está errado, Oráculo ?

– O sistema político, a forma de representação, a organização partidária e o financiamento das campanhas.

– Bom, Oráculo, aí você já quer reinventar o Brasil.

– Quem mandou perguntar ? E tem mais, viu ? O Judiciário. O Judiciário é a argila dessa massa fedida.

– Mas, como é que se sai dessa ?

- Vai demorar muito. Porque está todo mundo na roda. Eu te pergunto: quem não está no Daniel Dantas ou no Cachoeira ? Que partido ? Quem não tem o rabo preso ?

– A Folha !

– Como é que é ?

– Deixa pra lá, Oráculo.

– Veja uma coisa: não tem candidato a prefeito. Quantas grandes cidades do Brasil ainda não definiram o prefeito, quantas coligações já estão prontas ?

– E daí, Oráculo ?

– Porque esse sistema político aí é um sarapatel, uma misturança. Ninguém é de ninguém. Ou todos são de todos. Não tem coerência, partido. Aí, chega um Dantas, um Cachoeira, uma Delta … e ocupa o espaço. Abre a banca.

– Quem é a Delta, Oráculo ?

– Uma letra do alfabeto grego.

– Ah …

– E a imprensa também caiu na lama. Se misturou com os bandidos.

– Você acha ?, Oráculo, perguntou o ansioso blogueiro, como se soubesse a resposta.

– Veja, Globo, Estadao, Folha, não sobra nada. Não dá para ler mais nada.

– É o PiG, Oráculo.

– É o que ?

– Deixa pra lá, uma palavra inglesa. E a CPI, Oráculo ?

– O PSDB tem mais a perder que o PT.

– Por isso o PT quer tanto.

– Você faria o que ?

– Mas, a CPI vai resolver alguma coisa ?

– Vai.

– O que, Oráculo ?

– Melar o mensalão.

– Peraí, Oráculo, já ouvi isso em algum lugar …

– Mela, mas fica um pouco de lama na bainha da calça.

– Como assim, Oráculo ?

– Ora, meu filho, tenho mais o que fazer. Me dê licença.

Pano rápido.




Paulo Henrique Amorim

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Lula x FHC. A tabelinha. Por que a Dilma se reelegerá

(Charge: Wilson Estrella)

O Farol de Alexandria propaga que o Nunca Dantes só fez “surfar”.

Ele, o Farol, reinventou o Brasil e o Lula passou oito anos a se beneficiar dele e da maré montante da economia mundial.

Esqueceu-se do Tsunami da Urubóloga de 2008 !

E da Herança Maldita que deixou.

Por elas e outras, na eleição de 2002, nem o Padim Pade Cerra defendeu o Governo do Farol !

Para evitar dúvidas que o PiG (*) faz questão de difundir, aqui vai uma “tabelinha”, ou por que a Dilma vai se reeleger, ou por que nenhum tucano, tão cedo, sobe a rampa do Palácio do Planalto:

Extraído de “Economia Brasileira em Perspectiva” – 14ª Edição Especial – de fevereiro de 2012, do site do Ministério da Fazenda.

PIB


2002 – US$ 500 bilhões


2012 – US$ 2,6 trilhões, o que faz do Brasil a SEXTA economia do Mundo


PIB per capita


2002 – US$ 2,8 mi


2012 – US$ 13,3 mil


Ou seja, os dois casos, o Brasil se multiplicou por CINCO.


Produção de automóveis


2002 – 1,8 milhão de unidades


20111- 3,4 milhões de unidades, o que faz do Brasil o SEXTO maior produtor mundial


Safra de grãos


2002 – 96,8 milhões de toneladas


2011 – 163 milhões (campeão mundial na produção de cana e vie campeão mundial na produção de soja)


Taxa de investimento sobre o PIB


2002 – 16, 4%


2012 – 20,8%


Investimento Estrangeiro Direto


2002 – US$ 16,5 milhões


2011 – US$ 66,6 bilhões – 4o. Lugar emingressos de IED


Inflação – IPCA


2002 – 12,5%


2012 – 4,7%


Desemprego


2002 – 12,9%


2011 – 4,7 – entre 2002 e 2001 o Nunca Dantes criou 18 milhões de postos de trabalho


Formalização do trabalho


2002 – 45,5%


2011 – 53,2%


Salário Mínimo nominal


2002 – R$ 200


2012 – R$ 622 – ganho real : 66%


Coeficiente de Gini, que mede a desigualdade de renda (quanto mais perto de 1, pior)


2002 – 0,589


2011 – 0,541 – queda de 8,9%


Taxa de pobreza (Classe “E” no total da população)


2002 – 26,7%


2012 – 12,8%


Classe C sobre total da população


2002 – 37%


2012 – 50%


Número de matrículas no ensino profissional


2002 – 565 mil


2012 – 924 mil


Percentual da força de trabalho com 11 anos ou mais de estudo


2002 – 44,7%


2012 – 60,5%


Bolsas de Mestrado e Doutorado no Capes e CNPq


2002 – 35 mil


2010 – 74 mil


2013 – 105 mil


Títulos em doutorado


2002 – 6.894


2012 – 13.304


Dívida externa


2002 – US$ 165 bilhões


2011 – US$ – 79,1 bilhões


Reservas Internacionais


2oo2 – US$ 36 bilhões


2012 – US$ 353 bilhões


Exportacoes


2002 – US$ 60 bilhões


2011 – US$ 256 bilhões


Juros – taxa Selic


2002 – 25% aa


2012 (31 janeiro) – 10,50% (9,75% em março)


Taxa que o Brasil paga em título vendido no exterior


2002 – 12,6% aa


Janeiro de 2012 – 3,5% aa


Dívida do setor público sobre o PIB


2002 – 60,4%


2012 – 36,9%


% da divida indexada à taxa de cambio


2002 – 45,83%


dez 2011 – 21,89


Despesas de pessoal


2002 – 4,8% do PIB


2012 – 4,4% do PIB


Fonte: Conversa Afiada.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

FHC fugiu do Amaury




Na nota em que ” toma satisfações do Amaury”, o Farol de Alexandria pede Justica e se diz vitima de uma “infâmia”.

Ou seja, ele fugiu do Amaury.

O Codigo Penal preve três crimes contra a honra.

Injúria, artigo 137, é atribuir uma qualidade negativa a alguem: Zezinho é muito feio.

Calúnia, artigo 138, consiste em atribur um crime a alguém: Zezinho roubou a minha bicicleta.

Difamação, artigo 139, consiste em ofender a reputação: Zezinho só vai trabalhar embriagado.

“Infâmia” é literatura.

Nao é crime.

Ninguém pode exigir Justiça para reparar uma infâmia.

Por que o Farol acusa o Amaury de infamante?

Porque isso não tem consequência jurídica.

Tem o mesmo valor de chamar o Amaury de vesgo.

O Farol jogou para a plateia.

Para os parvos.

O Farol, o Cerra ou qualquer ilustre membro de sua clã precisa pensar duas vezes antes de processar o Amaury.

O Ricardo Sérgio fez essa besteira, leviu uma “exceção da verdade” pela lata e deu no que deu.

FHC mostrou-se indignado, pediu Justiça e foi embora para a Europa – e o Cerra que se vire.

O Farol deve ter consultado um criminalista de escola, como seu Ministro da Justiça, José Carlos Dias, advogado de Cerra.

E o Dias sabe que infâmia é como uma nuvem.

Escurece e vai embora.

Paulo Henrique Amorim

sábado, 10 de dezembro de 2011

O “D” de PSDB quer mesmo dizer Democracia?


ação de Aécio Neves e FHC quando souberam da pergunta-título desde artigo

Por Ana Helena Tavares(*)

Já não está mais aqui o velho timoneiro que também criou um partido com “D” na sigla e dava a essa letrinha o seguinte sentido: “A grande força da democracia é confessar-se falível de imperfeição e impureza, o que não acontece com os sistemas totalitários, que se autopromovem em perfeitos e oniscientes para que sejam irresponsáveis e onipotentes.” (Ulysses Guimarães)

Se já nenhum ser humano é infalível, imaginem no jogo político, reforçado pela numerosa parcela medíocre da imprensa que se vende a ele, onde há palanques até embaixo de tapetes. Não há altares de pureza.

De limpa já basta a raça com que Hitler sonhava – e que parte do mundo ainda quer tornar realidade. É um jogo de causar inveja ao mais maquiavélico jogador de pôquer. RM (o todo-poderoso da Globo) entendia dos dois jogos. FHC lecionou sobre Maquiavel.

JS, aluno tardio e arredio, não aprendeu grande coisa. Principalmente, não aprendeu a reconhecer seus próprios erros. Coisa que não poderia mesmo aprender com FHC.

Por que, com todos os defeitos que possa ter tido, nossa Constituinte foi um avanço democrático? Porque é preciso reconhecer-se imperfeito para avançar. Naquele momento, os congressistas sentiam-se derrotados por 20 anos de ditadura. E só assim foi possível começar de novo.

Quando JS e FHC reconhecerão que foram derrotados? Não por Dilma, nem por Lula, nem pelo PT, mas por seus próprios aliados e, pior, por seus próprios egos. JS mantém um Twitter tragicômico. FHC escreve artigos que ninguém de bom senso consegue ler.

É assombrosa a miudeza de pensamento deles. Não fazem política. Fazem futrica.

É nítida a sede de poder, vazia de sustentação. A eterna ânsia de tapetão.

Isso não é bom para o Brasil.

O que o PSDB fez ao pedir a cassação do registro de Dilma, quando ela contava com mais de 50% dos votos na eleição de 2010, senão a irresponsabilidade de tentar ganhar na marra, achando-se onipotente, “cavalo puro sangue”, na (ingênua) tentativa de aniquilar a concorrência?

E por que perderam mesmo com a metralhadora da mídia apontada unicamente contra o PT? Porque o T de PT quer mesmo dizer Trabalhadores. Negar isso é negar que milhões de pessoas foram tiradas da miséria, fato que o mundo inteiro reconhece.

Ah, o Brasil ainda tem muitos problemas… A educação de base é das piores do mundo. Ok. Vocês não acham possível mudar em 9 anos um país explorado por 5 séculos, não é?

Membros da alta cúpula petista enriqueceram? Sim. Se foi dentro da lei, e daí? Que moralismo de bordel é esse onde político não pode enriquecer, mas todo mundo acha normal a fortuna de Steve Jobs e Eike Batista? Quem vocês acham que corrompe os políticos senão os grandes empresários? Se o enriquecemento não foi lícito, é caso de polícia. É assunto para o Ministério Público e para a Justiça.

Como também deveria ser o recém lançado livro “A privataria tucana”, do premiado jornalista Amaury Ribeiro Jr.

Dizem que o “B” de PSDB refere-se a Brasil. Vender o patrimônio público e enriquecer em cima disso é ser brasileiro onde, quando, como?

A roubalheira durante as privatizações foi fortíssima. O teor do livro seria para colocar na cadeia JS, FHC e RT (o dono da bola, homem com o corpo mais fechado do Brasil). É vergonhoso, escandaloso, indecoroso, o silêncio sepulcral da mídia e o do judiciário.

Hoje, quem for à banca de jornal, presenciará uma guerra de capas. A da revista Carta Capital anuncia o livro bombástico. Mas engana-se quem acha que Veja o ignora. A revista(?) da Editora Abril passa recibo, tentando desqualificar as denúncias.

A diferença? É que o trabalho bem apurado da Carta Capital só tem voz graças à internet. Já o esgoto da Veja tem efeito cascata na Folha, no Estadão e em todos os veículos comandados pela família de RM (o homem que jogava pôquer com a sociedade).

Nenhum país avança na caminhada democrática tendo uma oposição que, por não conseguir ganhar no voto, se escora na mídia para desestabilizar o governo. Federal. Porque o de SP não passa pela boca da Poeta nem quando a corrupção sai em livro.

Vai daí que a corrupção só vai acabar quando ela parar de ser investigada e punida de forma seletiva. Quando a regulamentação da mídia garantir acesso à informação a todos os brasileiros. Quando houver uma reforma séria no judiciário. Quando houver uma reforma séria na política.

Quando tudo isso acontecer afetará a vida de todos, principalmente a da elite, por detrás de seus vidros fumê. De onde não ouve o povo. Nem o vê.

Quando afirmei, no início deste texto, que JS e FHC foram derrotados por seus próprios aliados não foram palavras gratuitas. O jornalista Amaury Ribeiro Jr. de petista não tem nada – é ligado a AN (diz isso no livro). E tudo indica que foi o neto de Tancredo que, que mandando e desmandando no jornal “O Estado de Minas”, lhe pediu o início das investigações que geraram o livro.

Amaury foi, então, acusado de quebrar o sigilo de diversos tucanos para obter algumas das informações. Sendo verdade, o que JS tem a reclamar se sua filha, através de sua empresa, quebrou uma quantidade infinitamente maior de sigilos para fins bem menos nobres?

Ligado ao PSDB e legítimo representante da privataria, agora denunciada e fartamente documentada em livro, o engenheiro Luiz Carlos Mendonça de Barros, teve amplo espaço na edição de 30 de Agosto de 2010 da revista Época, para se defender do suposto grampo de Amaury dizendo o seguinte absurdo: “quebra de sigilo fiscal guarda a mesma proporção que uma tortura física praticada pela polícia e pelo exército porque se trata de direitos constitucionais do cidadão” (declaração que só pode mesmo vir de quem estava nadando em dinheiro durante a ditadura).

Aí, fica a pergunta: no escândalo do grampo (leia-se quebra de sigilo telefônico) – que levou “Mendonção” (como é conhecido Mendonça de Barros), então presidente do BNDES, ao banco dos réus (sendo absolvido) em ação de improbidade administrativa, e que comprovadamente ocorreu com a condescendência do então Presidente da República FHC – não estavam em jogo “direitos constitucionais do cidadão”?

O que este texto tenta mostrar é que o que distingue um governo de outro não é aquilo que todos chamam hipocritamente de moral, bons costumes, etc e tal, sem, muitas vezes, ter nada disso em casa. A diferença está no projeto político. É isso o que os brasileiros deveriam estar discutindo nos bares (além do futebol, é claro).

Vale ainda frisar que se agora a corrupção aparece tanto, de uma forma como não aparecia antes, é óbvio que é porque ela está sendo combatida de forma democrática e transparente, enquanto outros, com a luxuosa ajuda dos barões da mídia, preferiam engavetá-la.

Reza a lenda que o brasileiro típico “não tem nem um mal nem um bom caráter, simplesmente não o tem”. Só que isso não quer dizer que sejamos manipuláveis. Macunaíma era bem mais esperto do que os leitores da Veja.

Não consigo ver o nosso “herói sem nenhum caráter” acreditando em denúncias sem provas e desprezando um livro bem documentado. Não, ele não cairia nessa.

O que somos é maleáveis ao vento dos interesses. E aí há gente que acredite em tudo, de acordo com o que lhes convém.

E há também quem não possa acreditar nem deixar de acreditar por ser impedido de se informar sobre os acontecimentos. O editor do livro “A privataria tucana” já denunciou ter sido sondado por JS para uma “conversa”.

JS foi líder estudantil numa época em que o Brasil vivia sob um regime que também começa com “D”. Espero que ele não esteja com saudades.

*Ana Helena Tavares é editora do site Quem tem medo da democracia?

domingo, 20 de novembro de 2011

Mauro Santayana: Espanha, entre a direita e a direita

A Espanha, nas eleições de domingo, está entre a direita e a direita. Por mais que o PSOE busque recuperar o discurso, seus porta-vozes de hoje estão afônicos. Mas a Espanha não é um caso isolado. A esquerda está nas ruas, com os indignados do mundo inteiro, mas sem líderes, sem projetos e sem programass.

Nos meses fervilhantes de 1963, que antecederam o golpe militar, eu subia, com os professores de direito e homens públicos Edgard da Matta Machado e Alberto Deodato, a Rua da Bahia, eixo político e social de Belo Horizonte. Deodato, sergipano, que vivia em Minas desde moço, era advogado de latifundiários, assumia a sua posição de direita e convivia, com amabilidade, com pessoas de esquerda, como éramos Edgard e eu. De repente, ele, bem humorado, parou e comentou que contrariava a lógica e a física: como caminhava entre nós dois, estava entre a esquerda e a esquerda.

A Espanha, nas eleições de domingo, está entre a direita e a direita. Por mais que o PSOE busque recuperar o discurso, seus porta-vozes de hoje estão afônicos: os sonhos de Pablo Iglesias, o fundador do socialismo espanhol, foram varridos pela timidez de Zapatero e seu grupo. Mas a Espanha não é um caso isolado. A esquerda está nas ruas, com os indignados do mundo inteiro, mas sem líderes, sem projetos e sem programas. Mesmo que os indignados espanhóis quisessem, não teriam em quem votar. Em seu desconsolo, tanto faz sufragar Rubacalba quanto Rajoy. Por isso mesmo espera-se a vitória do conservador, por ser uma alternativa ao que já se conhece.

O bipartidarismo de fato, que muitos admiram e querem, fecha o passo a terceiras idéias e novas personalidades. Desde a eleição de Felipe González que os socialistas buscam o acomodamento na Espanha. Naquele momento, a tática da moderação era necessária. É de se recordar que, nos debates no Parlamento, para a aprovação do nome do então jovem advogado andaluz como chefe de governo, em outubro de 1982, o chefe de fila da direita, Manuel Fraga Iribarne, comentou que Felipe aparecia na arena como un toro afeitado, ou seja, um touro com os chifres serrados, com discurso apaziguador. Mas Fraga advertiu que fora um touro de chifres aparados que matara o famoso toureiro Manolete em 1947, em Liñares.

Felipe foi um bom governante na garantia das liberdades públicas, mas se manteve tímido na frente econômica, sem avançar sobre os Acordos de Moncloa, negociados pelo seu predecessor Adolfo Suarez. Os endinheirados, que vinham de Franco, mesmo que hajam cedido um pouco, continuaram governando de fato o país, mediante os bancos e as grandes corporações.

Essa falta de ousadia e outros equívocos levaram a direita a tomar o poder, em 1996, com Aznar, saudoso do franquismo e vassalo fiel de Washington. Ele ficou famoso pelo seu atrevimento ao tratar a América Espanhola como nos séculos 16 e 17, quando no auge do Império colonial.

Como é sabido, Aznar chegou a telefonar para o presidente argentino Eduardo Zuhalde, ordenando-lhe, com grosseria, que acatasse as exigências do FMI.

Zapatero começou com algumas esperanças, ao reduzir a submissão a Washington, ao retirar o grosso de suas tropas do Iraque, mas, pouco a pouco, foi aceitando as pressões, internas e externas, associando-se aos banqueiros e às corporações empresariais.

Desviando recursos recebidos da União Européia, financiou a compra de empresas estatais e privatizadas na América Latina – incluído o Brasil – em continuação à política neoliberal da direita. Com isso, ao não usar os recursos no próprio país, contribuiu para a grave crise econômica atual. A um sucedâneo da direita, que era o seu governo, os eleitores indecisos preferem o original, e votam agora em Rajoy. O mesmo fenômeno pode ocorrer na Europa, nos poucos países em que governos de centro e centro esquerda detêm o poder.

Mas muitos dos desiludidos dos partidos tradicionais, que agravaram a situação de desemprego, vão mais à direita e procuram os partidos racistas como alternativa. Há, assim, a rearticulação dos nazistas e fascistas, com seu ódio contra os estrangeiros, como ocorreu há dias na grande manifestação da ultra-direita em Varsóvia. O massacre da Noruega é uma séria advertência que os governantes estão desprezando.
Há, no entanto, duas possibilidades de que o centro-esquerda ganhe os pleitos futuros: a França, desanimada de Sarkozy e de seus crimes na Líbia; e a Alemanha de Angela Merkel, cuja política, ainda que bem sucedida em termos econômicos, dá sinais de fadiga.

por Mauro Santayana, em Carta Maior

sábado, 19 de novembro de 2011

Não acredite em agências de risco. O problema não é a Miriam. É a Globo

A agência de risco americana Standard & Poor’s elevou a nota do Brasil a BBB – ou seja, o risco de o Brasil dar um calote da dívida é minimo.


Foi essa mesma S&P que rebaixou a nota dos Estados Unidos e seu presidente foi devidamente demitido.

O Conversa Afiada não leva nenhuma agência de risco a sério.

Especialmente a S&P.

São agências de chute revestido de ciência, como acontece com os instrumentos da ação do Neolibelismo (*) pelo mundo.

Sobre o cascatômetro das agências de risco, assista, amigo navegante, ao filme Inside Job, Trabalho Interno.

Não fica agência sobre agência.

Mas a Urubóloga, neolibelês (*) por excelência, acredita em agências.

Agências reguladoras (como a Anatel rsrsrsrsr) e de risco.

Hoje, na primeira pagina de O Globo, sabe-se que a colona (**) da referida colonista (***) completa ali 20 anos.

Vinte anos de neolibelismo (*) na veia !

O ansioso blogueiro correu a referida colona (**) para ler sobre o novo reluzente papel do Brasil na S&P.

Nada.

A colona (**) dos Vinte Anos é um exercicio naricisístico sobre a colonista e seu papel testemunhal, decisivo, nos últimos vinte anos de história do Brasil – que, sem ela e a Globo, não seria o mesmo.

O problema não é a Miriam.

O problema é a Globo.

A Globo, que da à Miriam uma exposição que nenhum pensador brasileiro sobre a Economia jamais teve.

Roberto Simonsen, Nelson Werneck Sodre, Mario Henriue Simonsen (para ficar na letra “s”), juntos, jamais terão o poder de penetração e persuasão que a Urubóloga tem num único dia: no Bom (?) Dia e seus gráficos mortíferos (pobre Renata Vasconcelos ! ), na CBN, a radio que troca a noticia, no Globo, no portal Globo.

A Globo também não seria a mesma sem ela.

A Urubóloga dá o substância ideológica ao maior conglomerado de mídia da América Latina.

(O Ali Kamel é o Ratzinger – o guardião da Fé e o Torquemada, o que manda para a fogueira.)

Esse é o problema, ministro Bernardo.

Usar um bem público – o sinal aberto – para disseminar ideologia travestida de Ciência.

A Urubóloga jamais produziu uma única ideia original.

Ela é um “embutido” da Sadia.

Mistura ingredientes conhecidos.

E que, separados, você talvez não ousasse consumir.

Como diria o Malan do Cerra: o que é novo não é bom; o que é bom não é novo.

O problema é a Globo - montada num país cuja ultima Ley de Medios data de 1963, no governo do grande Presidente João Goulart – é a Globo ter o poder que tem.

O problema não é a Miriam.

Porque, na Economia – que não é Ciência – a Urubóloga é um Paulo Coelho: a fama é inversamente proporcional à qualidade.

Paulo Henrique Amorim